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a pé em porto alegre

é possível aproveitar um final de manhã no parque farroupilha, com as pessoas fazendo matando tempo na hora do almoço; e de lá, pelas ruas, fazer o seguinte trajeto:

[instrução: clicar nos marcadores ou em ‘view larger map’ para acompanhar os detalhes; como todo trajeto a pé numa cidade desconhecida, o passeio é feito de acasos, achados inesquecíveis, coincidências, enganos, desencontros e dicas de pessoas que ia encontrando pelo caminho]

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Procurando os mapas

das linhas de transporte de metrô pelo Brasil, para fazer algo semelhante a uma colorida coleção de mapas dos metrôs pelos mundo que encontrei esses dias, me deparei com um emaranhado de informações. O vocabulário flutua: metrô, metrô de superfície, trem urbano, vlt, monotrilho, etc. Os mapas mostram o estado atual das linhas tão claramente quanto os projetos mais quiméricos – difícil saber o que realmente circula, o que se encontra em construção. O mesmo acontece com a descrição das redes: mostram mais o desejo das linhas cortando rapidamente as cidades, com brilho metálico e barulhinho de válvulas, ar-condicionado. PAC e Copa de 2014 são luzinhas no fim do túnel.

O que reúno aqui não passa de um passeio de uma não-especialista: informações técnicas se misturam a comentários pessoais. Mesmo das informações, poucas sólidas, muitas desatualizadas. As lacunas e pontos obscuros estão mais aqui para se perder do que para guiar.

BA, Salvador

Há anos o projeto caminha a passos lentos. Cada trecho da linha foi feito por uma empresa diferente, a bitola da linha muda, a altura da plataforma também. Ao que tudo indica os trens estão nos trilhos e começam a operar em 2011.

CE, Fortaleza

Dúvida: está em operação? São planos?

Cariri

Faz um ano, uma linha de trens verdinhos liga Crato a Juazeiro do Norte.

DF, Brasília

Em visita à cidade, não peguei o metrô. Os mapas me enganavam, não via as estações onde se dizia que havia. Mas também não procurei com afinco. Vi na rua onde que se deu o nome de “metrô” a uma linha que mais se assemelhava a ônibus – algo semelhante acontece no Rio de Janeiro.

GO, Goiânia

Um mapa bem técnico, várias discussões antigas em fóruns, um projeto já bem desatualizado.

MG, Belo Horizonte

Uma linha em funcionamento, duas outras em projeto.

PB, João Pessoa

Linha de trem a diesel ou de metrô, só sei que passa por uma paisagem muito mimosa e emocionante ao pôr-do-sol.

PE, Recife

Metrô simpático, com o mesmo lay-out do metrô de São Paulo. Leva até regiões periféricas, a rodoviária longínqua ou até o aeroporto que fica logo ali. O grande diferencial são as logos para cada estação, que rendem boas conversas aos curiosos em visita.

PI, Teresina

Na linha rodam trens húngaros, que já circularam no Rio Grande do Sul (vide foto que ilustra o começo deste post). Uma notícia fala de novos trens, outra de ligação até a cidade de Timon-MA (metrô interestadual?), outra de mudança na administração. O site da companhia de transportes apresenta algo que deve estar longe do estado atual. O da CBTU oferece pouco.

PR, Curitiba

Em construção.

RJ, Rio de Janeiro

Linhas e integrações à beça. Os cartões de tarifa se multiplicam, mas nada muito complicado. O “metrô na superfície” é uma linha de ônibus. Estações recém-reformadas, coloridinhas. A voz que anuncia as estações é automática, mas quebra a frieza desejando “que você tenha uma boa viagem, um bom dia!”.

RN, Natal

Poderia considerar “trem urbano” metrô?

SP, São Paulo

Difícil um mapa do estado atual das linhas: sempre em expansão, estações vão sendo inauguradas aos poucos, mas se multiplicam em proporção maior as linhas e estações em projeto. Além disso, os mapas costumam mesclar linhas do metrô com as de trens da CPTM, o que dá uma colorida otimista.

Plataformas protegidas por portões de vidro e trens sem condutor são as perspectivas com as quais nos deparamos.

Com o atlas geográfico

descobri que o mundo todo existia – que por ele correntes marítimas circulavam, junto com mercadorias transportadas por navio; que dele extraíam minérios, instalavam indústrias, homens e mulheres nasciam em proporções desiguais e davam os mais diferentes nomes para os lugares onde viviam.

Do Brasil, fiquei sabendo que muita coisa se concentrava bem perto de mim. O país parecia um lugar grande, de grandes vazios, cheios de árvores talvez. O livro que eu usava na escola tinha também um mapa na contracapa. Eles diferiam um pouco. Isso porque havia um novo Estado da federação, devo ter ouvido isso também nas notícias.

Meu atlas não acompanhava a vida – como o google maps hoje… Comparei os limites que o livro didático fornecia. Fiz um primeiro traço de caneta azul. Problema, talvez demais ao norte. Não podia riscar o nome de Goiás. Como pude, tracei outro limite. São Félix e Gurupi mais ao norte; a estrada que leva a Barreiras não estaria na mesma linha, mas é o que dava para fazer. Com a mesma caneta fluorescente que usei para destacar o Brasil no mapa múndi, no começo do atlas, faço um limite translúcido, largo, uma boa faixa de transição. Na altura da capital que ainda se construía, coloquei o nome do estado.

E assim eu criei Tocantins.

Para Aparecida

fizemos o seguinte:

1) Alugamos um carro; a locadora fica na Rua da Consolação, perto da São Luís, quase esquina com a Nestor Pestana. Era um sábado de tempo bom, não muito calor, um pouco nublado. Esperando todos os viajantes fiquei andando pela Martins Fontes, depois vendo o movimento da rua aumentar discretamente.

2) De lá saímos umas 11h. O caminho até a estrada é meio chatinho, por mais que simples. Tem que passar por perto da Zona Cerealista, Mercadão, Luz, região da 25 de março, que sábado de manhã está no ápice da agitação.

3) Com a Marginal Tietê em obras, o sufoco dura alguns minutos. Chegar na estrada é um alívio: Ayrton Senna e Carvalho Pinto na ida; Dutra na volta, só para variar um pouco.

4) O comércio é fartíssimo. Sem dificuldade achamos um restaurante razoável, não muito longe da Basílica Velha – um mimo, depois da restauração que está em curso. Deixamos o carro na pracinha da basílica.

5) A passarela que leva à nova basílica é um momento à parte. Uns rapazes pagando promessa caminham de joelhos. Um deles somente acompanhado da namorada, que lhe dá as mãos.

6) Na basílica a todo momento há cânticos ou arremedos de missa.

7) A sala das promessas é o ponto alto do dia. Ex-votos, fotos coladas no teto, objetos de profissão organizado por temas em vitrines, crucifixos, imagens da nossa senhora.

8) O mirante não é extraordinário, mas vale os três reais de entrada, que também dão direito a visitar o museu. O prédio do mirante é o único lugar onde pude encontrar cartões postais. O comércio de lojas e barracas oferece gravação com nome em chaveiros e em todo objeto gravável. Pessoas se reúnem em torno de “folclore”.

9) Sair para pegar a estrada é questão de ficar atento às placas.

10) Ir a Aparecida fora do mês de outubro não é um inferno como eu esperava.

Sensação de missão cumprida.

Quando em Confins

senão durante uma conexão com um bom intervalo que permite fazer um passeio?

O aeroporto de Confins, que nem oficialmente tem esse nome, mas “Aeroporto Internacional de Belo Horizonte – Tancredo Neves”, é o que se encontra mais distante de sua região central. Logo, impossível qualquer passeio a BH entre um voo e outro.

Na saída do aeroporto, logo em frente, depois dos pontos de táxi e do estacionamento, há pontos de ônibus. O turista em conexão pode escolher pegar uma das duas linhas: Lagoa Santa ou Pedro Leopoldo.

A linha Lagoa Santa leva à cidade de mesmo nome, onde, é claro, há uma lagoa – dentre as várias de toda essa região mineira. As funcionárias do café do aeroporto, quando indagadas sobre os arredores, disseram que Lagoa Santa é “mais agitado” do que Confins, “que não tem nada”. Escolhemos Confins.

Confins, ex-distrito de Lagoa Santa, agora cidade por conta do aeroporto, está na direção oposta. É preciso pegar a linha Pedro Leopoldo e pedir ao cobrador a passagem para a cidade de Confins, que custa R$ 2,25: um bilhete azul, ideal para guardar como lembrança de viagem.

O trajeto é curto, o ônibus desce o terreno do aeroporto, e aos poucos vai descortinando a paisagem confinense, abaixo. O cobrador avisa – ou logo se percebe – minutos depois que chegamos ao centro da cidade: supermercado, açougue, bares. O campo de futebol do Aliança Esporte Clube. O lago de Cima.

Para voltar ao aerporto, basta esperar o ônibus na parada em frente à papelaria A4, seguindo a indicação do atendente do bar da esquina, que informará também o horário exato em que o ônibus passa. Caso o turista em conexão se distraia dentro na papelaria com os papéis coloridos (e um tanto caros), e perca o ônibus (sem ter comprado os papéis), será necessário correr até perto da lagoa, onde o ônibus volta a passar, deixando mais Confins para quem sabe uma outra conexão.

Em duas horas tranquilamente é possível ir, visitar e voltar ao aeroporto.

Os nomes próprios

franceses são os mais variados. Dubois talvez seja o Silva francês, mas entre muitos outros nomes de famille, a que se misturam, desde muito, sobrenomes de origens diversas.

Algo similar acontece com os nomes de cidades.

Por um lado, muitas delas se apóiam nos nomes dos rios que as cortam: Neuilly-sur-Seine, Marne-la-Vallée, Toulon-sur-Allier, Saint-Pourçain-sur-Sioule, assim como as regiões administrativas.
Há outros nomes mais francesinhos, mas mesmo assim estranhos: Sucy-en-Brie, Mantes-la-Jolie, Mâcon, Brest, que sempre parecem esconder algo.

Alguns são nomes de coisas – Moulins, Tours, Orange, Cassis, Lyon – ou muito simples –  Nice, Cher, Var, Ain, Pau, Gap. Mesmo depois da revolução francesa, algumas têm nome de santo.

Dentre todas essas que estão na minha mente, o nome de que queria falar aqui me fugiu.

Era um 14 de julho. Estava em Vichy – cidade que carrega o fardo, até hoje, de ter hospedado (literalmente, em seus hotéis de luxo) o governo aliado de Hitler; é só dizer a qualquer francês – estive em Vichy – que te olham com uma cara bizarre.

Vichy, não fosse somente por sua sombria história (ou poderia dizer que sua sombria história se deva a isso), fica numa região um pouco esquecida. Bem no centrão da França, a Auvergne (Auvérnia, em português). É a região cortada a sul pelo Maciço central, uma série de antigos vulcões que hoje oferecem paisagens verdes e redondinhas, um parque temático sobre vulcões, Vulcania, estações termais como em Vichy, muita água mineral e pastilhinhas brancas que lembram as garoto que temos por aqui. Já ia me esquecendo dos cosméticos Vichy…

Contrapondo-se à história vergonhosa de Vichy, a Auvergne conta com um gaulês lendário, Vercingétorix, que lutou contra a invasão de César, mas perdeu. Na série de paralelos forçados que vou ainda traçar aqui, Vercingétorix seria um Tiradentes, herói ressuscitado pelos republicanos para dar glória à História francesa. Há estátuas dele em algumas cidades, seu nome inspirou os autores de Astérix e rendeu ao menos um episódio da série, “O escudo arverno”.

Volto ao 14 de julho, segunda-feira. Tinha reservado um lugar no ônibus da excursão para Salers – agora recupero seu nome, indo buscar na revista Géo número 353, dedicada à Auvergne, lançada justo quando estava lá, julho de 2008. Mas quando soube que no feriado nacional eu teria aula, porque afinal somos estrangeiros e o 14 de julho não nos significava nada (eis a justificativa maldosa do diretor da escola), fui contrariada devolver meu bilhete. Poderia ter faltado à aula, poderia ter ido mas não fui. E até hoje Salers é uma não-visita muito sentida.

De Salers só me resta, quando pouco o seu nome, que eu já tinha esquecido, os relatos de quem foi e se maravilhou, a linda foto e a descrição da revista.

Nas minhas não-visitas, Auvergne estaria para Tocantins (em forma de chapéu, ambas no meio do território, entre anexações e separações) assim como Salers estaria para Pugmil (nomes que eu não posso esquecer).

Os serenos rumores

dos nomes vão nos chamando para correr daqui ali, as ruas, os bairros e as cidades.

Não posso dizer que Colatina nos chamou exclusivamente pela reluzência do seu nome, entre cola, lata, tina, co-latina. De Colatina falaremos depois. Aqui o rumor é Baunilha, um de seus distritos.

Imperceptível durante nossa visita diurna à Colatina, Baunilha se revelou tímida no meio da noite, durante o percurso de táxi que fazíamos de Colatina em direção a Vitória, em muitas coisas como Nova Petrópolis para o Sérgio, também envolta em névoa.

A BR-269 passa por seu amontoado de casinhas, enfileiradas em forma de vagens. Nós passamos dentro do táxi que Jaci conduzia pelos postes escuros, pela florzinha que é a estação de trem amarela, como todas as estações de trem eram e como não são mais. Podia ser nosso destino.

Saída da nossa lista de palavras preferidas em português, colada como uma orquídea no nosso caminho, Baunilha foi essencial para que o retorno improvisado ganhasse um sentido seu.