cinema inferno

nem sempre as viagens “inspiradas” no cinema precisariam ser um subproduto forçado, superficial, que nada fala dos lugares visitados e do qual a obra cinematográfica definitivamente não precisa.

penso nos roteiros que brotassem como florescências regadas pelas verdades de uma história, o que só é possível quando o cenário dessa história é, no mínimo, o segundo personagem mais importante.

penso em roteiros de perda. ilusórios como qualquer turismo, eles seriam a esperança do turista vivenciar, através do terror de se meter nas áreas mais obscuras de um lugar, as intimidades mais sinceras da cidade.

seria assim um longo passeio por ônibus e calçadas da teeran pouco solidária que não mostra os caminhos da garotinha em AYNEH.

seria assim uma caminhada por toda a madrugada do que há de mais decrépito do centro do recife, torcendo para que apenas as ruas, mas não os fatos, de AMIGOS DE RISCO se apresentassem.

seria assim ir a fargo, alheiar-se de qualquer estranheza e simplesmente resfastelar-se no nada de FARGO.

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Quando em Confins

senão durante uma conexão com um bom intervalo que permite fazer um passeio?

O aeroporto de Confins, que nem oficialmente tem esse nome, mas “Aeroporto Internacional de Belo Horizonte – Tancredo Neves”, é o que se encontra mais distante de sua região central. Logo, impossível qualquer passeio a BH entre um voo e outro.

Na saída do aeroporto, logo em frente, depois dos pontos de táxi e do estacionamento, há pontos de ônibus. O turista em conexão pode escolher pegar uma das duas linhas: Lagoa Santa ou Pedro Leopoldo.

A linha Lagoa Santa leva à cidade de mesmo nome, onde, é claro, há uma lagoa – dentre as várias de toda essa região mineira. As funcionárias do café do aeroporto, quando indagadas sobre os arredores, disseram que Lagoa Santa é “mais agitado” do que Confins, “que não tem nada”. Escolhemos Confins.

Confins, ex-distrito de Lagoa Santa, agora cidade por conta do aeroporto, está na direção oposta. É preciso pegar a linha Pedro Leopoldo e pedir ao cobrador a passagem para a cidade de Confins, que custa R$ 2,25: um bilhete azul, ideal para guardar como lembrança de viagem.

O trajeto é curto, o ônibus desce o terreno do aeroporto, e aos poucos vai descortinando a paisagem confinense, abaixo. O cobrador avisa – ou logo se percebe – minutos depois que chegamos ao centro da cidade: supermercado, açougue, bares. O campo de futebol do Aliança Esporte Clube. O lago de Cima.

Para voltar ao aerporto, basta esperar o ônibus na parada em frente à papelaria A4, seguindo a indicação do atendente do bar da esquina, que informará também o horário exato em que o ônibus passa. Caso o turista em conexão se distraia dentro na papelaria com os papéis coloridos (e um tanto caros), e perca o ônibus (sem ter comprado os papéis), será necessário correr até perto da lagoa, onde o ônibus volta a passar, deixando mais Confins para quem sabe uma outra conexão.

Em duas horas tranquilamente é possível ir, visitar e voltar ao aeroporto.

sobre teu nome

vamos ao ponto: esta pedra está em pedra.

para subir e tirar essa foto cinzenta ao lado do cruzeiro precário serão necessárias algo como quatro horas pela br232, do recife até arcoverde (cujo portal de entrada, até onde eu esteja atualizado, é um arco verde). ali já é sertão, porém os pouco mais de 15 km da estradinha até pedra trazem (sem que o não-iniciado entenda o porquê) de volta ao agreste.

se houver alguma dúvida do caminho, ao se pedir a um arcoverdense, talvez ouça-se a pergunta: “pedra de buíque?”. pode-se responder que sim. mas JAMAIS alguém deve usar tal expressão diante de um pedrense. a fúria e a mágoa devastarão o cidadão que se orgulha de pertencer a um município separado da vizinha um pouco maior, mais famosa e…turística.

estive em pedra por duas vezes, num hiato de vinte anos. nada de novo surgiu em meio a uma cidade que já não causava sobressalto. mas o que existia decaiu, como a tinta velha da fachada de uma casa. se os tais 15 km eram transcorridos antes num quase piscar de olhos – sobretudo em noites absolutamente negras, com o mato alto afagando as portas do carro a 120 km/h, uma lua imensa e a certeza de criaturas nefastas que saltariam no asfalto para esfolar os viajantes -, na altura de 2005 as crateras a cada metro transformavam o empenho em quase uma hora (fruto de enchente histórica no raiar do século XXI).

se não há o que visitar e dificilmente até achar um restaurante para uma refeição qualquer, resta em pedra virar numa rua a dois quarteirões do centro e subir a pedra. um morador dissera certa vez que são 200 e poucos metros de altura. devia estar certo. ao pé da pedra, em algo como um açude, lavadeiras esfregam roupas e as estiram sobre a rocha.

– podemos tirar uma foto?

– quanto vocês vão dar pra gente?

sim, em pedra melhor só subir a pedra. um agreste bonito cada vez mais amplo a medida que o desafio é vencido. poças e musgos e aranhinhas e girinos. cactos singelos irrompendo em grupo. e ao fim, lá no cruzeiro, uma estranha mas confortável impressão de vitória, de conquista digna de um pico que dá sentido, nome e carinho a uma cidade com muito pouco de tudo isso.

Os nomes próprios

franceses são os mais variados. Dubois talvez seja o Silva francês, mas entre muitos outros nomes de famille, a que se misturam, desde muito, sobrenomes de origens diversas.

Algo similar acontece com os nomes de cidades.

Por um lado, muitas delas se apóiam nos nomes dos rios que as cortam: Neuilly-sur-Seine, Marne-la-Vallée, Toulon-sur-Allier, Saint-Pourçain-sur-Sioule, assim como as regiões administrativas.
Há outros nomes mais francesinhos, mas mesmo assim estranhos: Sucy-en-Brie, Mantes-la-Jolie, Mâcon, Brest, que sempre parecem esconder algo.

Alguns são nomes de coisas – Moulins, Tours, Orange, Cassis, Lyon – ou muito simples –  Nice, Cher, Var, Ain, Pau, Gap. Mesmo depois da revolução francesa, algumas têm nome de santo.

Dentre todas essas que estão na minha mente, o nome de que queria falar aqui me fugiu.

Era um 14 de julho. Estava em Vichy – cidade que carrega o fardo, até hoje, de ter hospedado (literalmente, em seus hotéis de luxo) o governo aliado de Hitler; é só dizer a qualquer francês – estive em Vichy – que te olham com uma cara bizarre.

Vichy, não fosse somente por sua sombria história (ou poderia dizer que sua sombria história se deva a isso), fica numa região um pouco esquecida. Bem no centrão da França, a Auvergne (Auvérnia, em português). É a região cortada a sul pelo Maciço central, uma série de antigos vulcões que hoje oferecem paisagens verdes e redondinhas, um parque temático sobre vulcões, Vulcania, estações termais como em Vichy, muita água mineral e pastilhinhas brancas que lembram as garoto que temos por aqui. Já ia me esquecendo dos cosméticos Vichy…

Contrapondo-se à história vergonhosa de Vichy, a Auvergne conta com um gaulês lendário, Vercingétorix, que lutou contra a invasão de César, mas perdeu. Na série de paralelos forçados que vou ainda traçar aqui, Vercingétorix seria um Tiradentes, herói ressuscitado pelos republicanos para dar glória à História francesa. Há estátuas dele em algumas cidades, seu nome inspirou os autores de Astérix e rendeu ao menos um episódio da série, “O escudo arverno”.

Volto ao 14 de julho, segunda-feira. Tinha reservado um lugar no ônibus da excursão para Salers – agora recupero seu nome, indo buscar na revista Géo número 353, dedicada à Auvergne, lançada justo quando estava lá, julho de 2008. Mas quando soube que no feriado nacional eu teria aula, porque afinal somos estrangeiros e o 14 de julho não nos significava nada (eis a justificativa maldosa do diretor da escola), fui contrariada devolver meu bilhete. Poderia ter faltado à aula, poderia ter ido mas não fui. E até hoje Salers é uma não-visita muito sentida.

De Salers só me resta, quando pouco o seu nome, que eu já tinha esquecido, os relatos de quem foi e se maravilhou, a linda foto e a descrição da revista.

Nas minhas não-visitas, Auvergne estaria para Tocantins (em forma de chapéu, ambas no meio do território, entre anexações e separações) assim como Salers estaria para Pugmil (nomes que eu não posso esquecer).

skyline pigeon

pugmil tem forma de tabuleiro quadrilateramente perfeito. poderia, pelo mapa, soar a conjunto habitacional ou bairro planejado ou rascunho de um urbanista iniciante e pouco inspirado. porém, seu interior é bem menos quadrado do que se imagina.  talvez o mais intrigante entre os inúmeros nomes intrigantes de municípios improváveis espalhados pelo tocantins, esse, ao menos,  já começa com a vantagem de ser bastante acessível. a partir da capital palmas, são aproximadamente 60 km bem retos até paraíso (a pacata e destacada quinta maior cidade do estado, dita “capital da logística” por motivos até agora não aferidos pelo autor). daí, tomando a infernal belém-brasília, com seus caminhões e carretas onipresentes, são mais 21 km até o destino final (?!).

pugmil tem obsessão pelo seu próprio nome nos estabelecimentos comerciais. suas ruas abundam em pequenos cachorros hostis aos passantes. monumento central revela que em algum momento (talvez hoje mesmo) pugmil teve uma prefeita e uma vice-prefeita, ambas com cara de senhoras que fazem docinho para aumentar a renda em casa. a igreja verde lembra um galpão feio e uma limpeza incomum torna as ruas especialmente agradáveis, embora, pelas árvores baixas e prédios pequenos, passem a impressão de andarmos numa cidade de crianças.

mas pugmil faz refletir quando percebemos que, num universo tão diminuto, o conceito de bairro e de contraste social já salta tão forte. olhando o tabuleiro, vê-se uma metade mais arborizada. este é o bairro centro (!), todo calçado, com ruas batizadas de estados do norte e do nordeste (mais minas gerais, pra seguir uma tradição SUDENE/SUDAM, talvez). o outro bairro (me foge o nome) não conhece o asfalto e a ele restam apenas os nomes das capitais do norte e do nordeste para as ruas (mais belo horizonte, claro).

por fim, não é possível guardar o maior segredo que pugmil carrega:

Os serenos rumores

dos nomes vão nos chamando para correr daqui ali, as ruas, os bairros e as cidades.

Não posso dizer que Colatina nos chamou exclusivamente pela reluzência do seu nome, entre cola, lata, tina, co-latina. De Colatina falaremos depois. Aqui o rumor é Baunilha, um de seus distritos.

Imperceptível durante nossa visita diurna à Colatina, Baunilha se revelou tímida no meio da noite, durante o percurso de táxi que fazíamos de Colatina em direção a Vitória, em muitas coisas como Nova Petrópolis para o Sérgio, também envolta em névoa.

A BR-269 passa por seu amontoado de casinhas, enfileiradas em forma de vagens. Nós passamos dentro do táxi que Jaci conduzia pelos postes escuros, pela florzinha que é a estação de trem amarela, como todas as estações de trem eram e como não são mais. Podia ser nosso destino.

Saída da nossa lista de palavras preferidas em português, colada como uma orquídea no nosso caminho, Baunilha foi essencial para que o retorno improvisado ganhasse um sentido seu.

fantasma passageiro

uma vez (inúmeras vezes) parei para listar as 5 ou 10 cidades mais bonitas onde já estive. pequena parte dessa lista era fácil e integrada por lugares que sempre se repetiam. nesse grupo, no geral muito óbvio, costumava entrar um elemento estranho: nova petrópolis-rs. antes que alguém estranhasse, eu mesmo me censurava, me acusando de incluí-la só para fazer par com petrópolis-rj, outra presença obrigatória na lista. a questão, no entanto, era mais misteriosa.

nunca estive em nova petrópolis, de fato. nunca vi nenhum de seus cidadãos, por certo. passei por ela há 23-24 anos atrás, no banco d etrás d eum carro, num trajeto entre caxias do sul e porto alegre. foram talvez 10 minutos de casas bonitas e simples, um mundo de madeira, um cheiro de fruta (que talvez saísse de mim), uma vida cinzenta e muita névoa sem frio. o bastante para eu levar nova petrópolis para sempre.

depois de algum tempo, já mais rigoroso,  passei a só considerar nessa slistas lugares onde eu havia pisado. foi assim que devolvi nova petrópolis ao lugar dela, em meio ao nada.