Arquivo da tag: tocantins

Com o atlas geográfico

descobri que o mundo todo existia – que por ele correntes marítimas circulavam, junto com mercadorias transportadas por navio; que dele extraíam minérios, instalavam indústrias, homens e mulheres nasciam em proporções desiguais e davam os mais diferentes nomes para os lugares onde viviam.

Do Brasil, fiquei sabendo que muita coisa se concentrava bem perto de mim. O país parecia um lugar grande, de grandes vazios, cheios de árvores talvez. O livro que eu usava na escola tinha também um mapa na contracapa. Eles diferiam um pouco. Isso porque havia um novo Estado da federação, devo ter ouvido isso também nas notícias.

Meu atlas não acompanhava a vida – como o google maps hoje… Comparei os limites que o livro didático fornecia. Fiz um primeiro traço de caneta azul. Problema, talvez demais ao norte. Não podia riscar o nome de Goiás. Como pude, tracei outro limite. São Félix e Gurupi mais ao norte; a estrada que leva a Barreiras não estaria na mesma linha, mas é o que dava para fazer. Com a mesma caneta fluorescente que usei para destacar o Brasil no mapa múndi, no começo do atlas, faço um limite translúcido, largo, uma boa faixa de transição. Na altura da capital que ainda se construía, coloquei o nome do estado.

E assim eu criei Tocantins.

Anúncios

skyline pigeon

pugmil tem forma de tabuleiro quadrilateramente perfeito. poderia, pelo mapa, soar a conjunto habitacional ou bairro planejado ou rascunho de um urbanista iniciante e pouco inspirado. porém, seu interior é bem menos quadrado do que se imagina.  talvez o mais intrigante entre os inúmeros nomes intrigantes de municípios improváveis espalhados pelo tocantins, esse, ao menos,  já começa com a vantagem de ser bastante acessível. a partir da capital palmas, são aproximadamente 60 km bem retos até paraíso (a pacata e destacada quinta maior cidade do estado, dita “capital da logística” por motivos até agora não aferidos pelo autor). daí, tomando a infernal belém-brasília, com seus caminhões e carretas onipresentes, são mais 21 km até o destino final (?!).

pugmil tem obsessão pelo seu próprio nome nos estabelecimentos comerciais. suas ruas abundam em pequenos cachorros hostis aos passantes. monumento central revela que em algum momento (talvez hoje mesmo) pugmil teve uma prefeita e uma vice-prefeita, ambas com cara de senhoras que fazem docinho para aumentar a renda em casa. a igreja verde lembra um galpão feio e uma limpeza incomum torna as ruas especialmente agradáveis, embora, pelas árvores baixas e prédios pequenos, passem a impressão de andarmos numa cidade de crianças.

mas pugmil faz refletir quando percebemos que, num universo tão diminuto, o conceito de bairro e de contraste social já salta tão forte. olhando o tabuleiro, vê-se uma metade mais arborizada. este é o bairro centro (!), todo calçado, com ruas batizadas de estados do norte e do nordeste (mais minas gerais, pra seguir uma tradição SUDENE/SUDAM, talvez). o outro bairro (me foge o nome) não conhece o asfalto e a ele restam apenas os nomes das capitais do norte e do nordeste para as ruas (mais belo horizonte, claro).

por fim, não é possível guardar o maior segredo que pugmil carrega: